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Exumando Memórias de uma Guerra sem Vitória

O cemitério monumento da batalha do Cuito ocupa uma área de 75 mil metros quadrados e abriga mais de 7 mil corpos exumados. (Foto: Luciana Guedes)

El Minuto | Familiares caminhando em direção aos túmulos de entes falecidos, entre risos e abraços alguns rostos se notam mais sérios. Em pleno 2 de novembro de 2022, o aparente descaso com a morte não se comprovava pela existência de um objeto em comum nas mãos de pelo menos um integrante de cada família: Eram as pás, destas que são utilizadas para a escavação de covas. O item que parecia algo macabro a um olhar desavisado, logo seria signo de afeto aos finados daquela fazenda de mortos.

    Escrito por: Luciana Guedes (1) y Alejandro Ramirez (2)

    Colaboración: Joel Barreto (3)

A cena se passava no Memorial Batalha do Kwitu, popularmente conhecido como Cemitério Monumento de Cuito, o município bieno no interior de Angola, onde aconteceu a Guerra dos Nove meses, o episódio mais sangrento da Guerra Civil do país. Esta batalha, que ocorreu no ano 1993, teve como protagonistas as forças do MPLA e da UNITA, fortemente armados e treinados desde a luta pela Independência Nacional. Muitos dos que não sobreviveram dito drama marcial na realidade não pertenciam a nenhuma das equipes combatentes, mas ali foram reunidos com os falecidos comandantes e soldados guerrilheiros, enterrados em um memorial de mártires.

Memorial Batalha do Kwitu foi construído no bairro de Camalaia (Elevação), em Cuito, Angola. (Foto: Luciana Guedes)


Nossa equipe de reportagem chegou para conhecer o espaço justamente no Feriado de Finados com a intenção de conseguir relatos sobre a batalha, e antes mesmo de entrarmos, fomos facilmente reconhecidos como estrangeiros àquela história, já que chamava atenção as câmeras fotográficas que portávamos, mas principalmente o nosso tom de pele mais claro.

O primeiro interlocutor que se aproximou foi José Matenda, o qual se apresentou como Procurador Adjunto do Tribunal Militar. Muito sorridente, pediu uma foto com a equipe, e com orgulho se declarou neto e representante da família Savimbi. O sobrenome, que seria muitas vezes mencionado pelos entrevistados que ainda íamos conhecer, pertenceu ao general das tropas da UNITA responsável por comandar os ataques que tentavam tomar o Cuito do controle do MPLA.

Perguntamos à José se ele sabia porque o cemitério havia sido construído, ao que ele respondeu: “As famílias estavam dispersas, era preciso reunir a todos”. Então o questionamos como se sentia revisitando este local: “Muita dor e respeito. Esta é a casa mundial, onde todos estaremos um dia e também seremos visitados”, alegou.

José Matenda reivindica o nome Savimbi, que ficou conhecido por ter sido do general da UNITA que apostou na tomada militar do Cuito (Foto: Alejandro Ramirez).


 

Integrantes da equipe com Matenda, ao fundo o bairro de Caiundu. (Foto: Luciana Guedes).


Em seguida, nos dirigimos à praça principal do cemitério, onde o monumento que relembra as crianças assassinadas em combate se contrasta com uma espécie de orgulho armamentista. Mais uma vez fomos abordados, desta vez por um trabalhador do local que não quis revelar o nome, operativo há 28 anos segundo o próprio, e que seria nosso guia e companheiro durante todo o trabalho. “Este é mesmo um cemitério de exumados. ”, contou. E nos explicava que “durante a guerra, não tinha cemitério. Era tudo fechado. Estes todos estiveram nos quintais. Familiar se enterrava em casa”.

Com um histórico de batalhas que se prolongaram por mais que 40 anos, em muito influenciado pela conjuntura internacional, o poderio bélico das forças guerrilheiras é contraditório com a pobreza da população. (Foto: Luciana Guedes).


O monumento representa as mães que perderam seus filhos na batalha (Foto: Alejandro Ramirez).


Segundo os relatos, a fome por falta de abastecimento de alimentos causou a morte de muitas pessoas. O povo angolano, como a mãe desta estátua, permaneceu apesar de tudo de cabeça erguida. (Foto: Alejandro Ramirez).


Os rostos do horror da guerra gravados para lembrar o que se espera que nunca mais aconteça. (Foto Alejandro Ramirez)


Estima-se que mais de 500 mil soldados e civis foram mortos durante os 27 anos de conflito, tendo sido a guerra civil mais mortífera e longa do continente africano. (Foto: Alejandro Ramirez).


A Guerra dos Nove Meses, além de ser o momento mais violento entre a UNITA e o MPLA, carrega também a fama de ser a etapa do conflito que impediu a divisão política do país. Foi o que nos argumentou Edson Gunga, professor de Pedagogia e História da Educação, que ali estava para visitar a campa do falecido pai, Felizberto Domingos Gunga: “Huambo cedeu, mas o Cuito resistiu”, defendeu prontamente.

Edson disse não sentir tristeza por ir ao cemitério na data: “É o momento de relembrar o espírito heroico dos nossos pais”. Ele, que foi realizar a vista acompanhado de familiares, dentre eles o próprio filho de 3 anos, nos explicou que as pás de escavação que as famílias traziam serviam para realizar a manutenção das covas, que eram as famílias as responsáveis a realizar este trabalho.

Ele tinha apenas 5 anos nesta etapa do combate, nos relatou que entre suas memórias, se lembra a dificuldade de conseguir comida nessa etapa da guerra, e que muitas vezes as tropas realizavam tréguas para fornecer alimentos aos próprios inimigos. Também nosso amigo guia endossava essa lembrança: “Para comer, tinha que ir nas lavras de Camacupa. Mas era difícil. Você não podia andar daqui até ali que já te acertavam”, lembra.

Edson Gunga (35) e seu filho Olavo Gunga (3) passam o feriado de finados juntos no Cemitério Monumento. (Foto Alejandro Ramirez)


Depois fomos conduzidos pelo nosso anônimo companheiro ao lugar onde os enterrados se encontram, cada túmulo com um número, mas sem epitáfios ou imagens, nem mesmo cruzes. Foi onde conhecemos a história De Gabriela Dovala, professora de física, e que ali estava trabalhando na cova de sua tia, moradora falecida do número 487. Perguntamos sobre sua história:

“Na guerra, minha mãe se refugiou. Quem cuidou de mim foi esta tia. Ela era uma pessoa muito boa, compartilhava com os outros o pouco que tinha. O dia que ela morreu eu não estava, tinha ido procurar alimento no Kunje. Ela foi baleada no pescoço pelos homens da UNITA no dia 15 de agosto de 1993. No dia 14 de agosto tinha sido o meu primo também assassinado, atingido por um projétil B12. ”, nos contou.

Gabriela e seu filho realizam a manutenção da cova de sua tia, que lhe criou como filha (Foto Luciana Guedes)


 

Para muitas famílias, relembrar seus mortos e limpar seus túmulos é uma forma de honrar a vida e expurgar a memória da guerra. (Foto: Alejandro Ramirez).


Continuamos a caminhada, enquanto as famílias se organizavam para fazer a decoração e limpeza da morada póstuma de seus entes. O operativo aponta para o túmulo de número 1 e me diz: “Este é do Comandante Cussumo”. Das muitas informações que compartilhava nosso acompanhante, os nomes dos combatentes parecem ser-lhe demasiado familiares. Lhe perguntamos se os havia conhecido, mas ele outra vez preferiu não responder.

Mais tarde nos contaria que daquelas armas expostas, ele já havia utilizado uma em especial, chamada Z.U. “A de dois canos”, apontava o operativo. E acrescentou: “ Já utilizei mesmo. Naquela época, todo filho de homem com 13, 14 anos já atirava. ”

A ZU é um canhão automático antiaéreo soviético. (Foto: Luciana Guedes)


 

Vista interna de um tanque de guerra. Plantas e vida emergem no que antes era um instrumento de morte. (Foto: Alejandro Ramirez)


 

O túmulo do comandante Cussumo. (Foto: Luciana Guedes)


 

Segundo as fontes, muitos dos corpos que foram transferidos para o cemitério monumento, estavam antes enterrados nos jardins residenciais. O processo de exumação aconteceu em 2003. (Foto: Luciana Guedes)


Apesar de enferrujados, muitos túmulos ainda conservam os seus números, figuras de um conflito que só merece ser lembrado para não se repetir. (Foto: Luciana Guedes)


Ouve-se um grito: “Essas armas foram as que mataram os seus tios”. É de Idalina Sacumboio, que alerta aos filhos sobre uma lição que ela mesma teve que aprender. Ela aponta para os tanques de guerra que dividem o espaço com mais de 7 mil covas, dentre as quais algumas são de seus familiares.

Idalina Sacumboio e sua família, mais um símbolo da transmissão da memória histórica às novas gerações. (Foto: Luciana Guedes).


Uma das administradoras públicas responsáveis pelo processo de construção e de exumação dos corpos que foram transferidos para o cemitério monumento é a senhora Prescinda Albino Chicomo, personagem principal de nosso primeiro capítulo. Ela coordenou a comissão criada pelo governo provincial e trabalhou na obra, que teve início em outubro de 2003:

 “Quando a guerra passou o presidente viu que os vivos e os mortos não poderiam viver no mesmo sítio. Primeiro cercaram o lugar com muros, depois a comissão começou a cavar. Eu também entrei nos buracos para cavar para os cadáveres que foram enterrados naquele tempo. Foi difícil.”, relata a senhora Prescinda.

Ela revela que a escolha do cemitério naquele lugar tem relação com a rota de fuga do cerco para a busca de alimentos. “Era a única passagem para as pessoas passarem a noite e irem nas lavras buscar alguma coisa para comer. ”, explica. “Mas mesmo assim, muitos ainda caíram nas emboscadas ali. ”, completa.

Rota que liga o centro da cidade do Cuito à área rural, onde estavam as lavras que a população conseguia encontrar alimento, na época do conflito.


Se certeza universal sobre a vida é o seu próprio fim, a população de Cuito carrega este saber em suas memórias de forma demasiadamente prematura. Não obstante o luto seja também um componente nesta aparente naturalidade com que os personagens relatam a perda de seus entes. Se a psicologia acredita na fala como uma ferramenta de tratamento de um trauma, contar esta história tem a intenção de contribuir com essa elaboração. Um processo histórico marcado por conflitos sucessivos por mais de 40 anos impõe à esta população um preparo psicológico para lidar com a perda, com a violência, com a possibilidade de deixar de existir.  “O resultado da guerra é isso aí que vocês estão vendo, é mesmo as campas”, ele, nosso acompanhante, guia e ex-combatente anônimo, nos disse antes de nos despedirmos.

1- Académica de la Escuela de Periodismo, Universidade Internacional do Cuanza (Kuito, Angola)

2- Académico de la Escuela de Lenguas, Universidade Internacional do Cuanza (Kuito, Angola)

3- Académico de la Escuela de Gestión y Administración de Empresas, Universidade Internacional do Cuanza (Kuito, Angola)

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